Tudo bem
Estou há tantos dias sem o Otto. Não sei mais nada dele. Nem ele sabe de mim. No começo, eu me sentia como se estivesse num pesadelo, sem conseguir acordar. Com o passar dos dias, parecia insônia, nada de descanso. Parece que não existe mais o dormir e o acordar. Estou me sentindo mal sempre.
Numa noite dessas qualquer, sonhei que ele cuidava de mim. Os meus pés doíam, estavam cansados, e ele me colocou sentada em cima da mesa. Tirava as meias com calma para ver o que estava acontecendo, mas o rosto dele era tão sereno. Sorria, como se me dissesse: “Vai ficar tudo bem”. Depois ele dizia “Eu te amo”, me dava um beijo e ia pegar alguma coisa no armário. Eu não entendia o que estava acontecendo: tão calmo, tão sereno, tão certo do que queria, cuidando de mim com tanto amor.
Mas a realidade bate à minha porta: o Otto não vai voltar. Se ele quisesse, já teria voltado. Se ele quisesse, teria me procurado. Se ele quisesse, diria: “Vai ficar tudo bem, Anna. Vai ficar tudo bem”.
Eu queria acordar de repente, esticar o braço, senti-lo ao meu lado e ouvi-lo dizer, de verdade: “Eu te amo e vai ficar tudo bem”. Só queria isso, que tudo ficasse bem.