A saudade em qualquer lugar

Eu voltei a fazer academia. Ficava muito tempo em casa, fazendo os meus trabalhos manuais para passar o tempo, exercendo o meu ofício de ilustradora de livros. Só casa, casa, casa, casa. Parecia que, a qualquer momento, eu ouviria o barulho da porta se abrindo e veria o Otto. Eu precisava sair daqui.

Além de voltar, agora eu faço várias aulas na seqüência. Assim eu canso o meu corpo e não penso em nada. Ginástica, jump, alongamento. Musculação não, porque daí já é demais.

Mas hoje, no vestiário, entre uma aula e outra, vi uma das meninas usando aliança de noivado. Tentei não pensar, mas não teve jeito, logo pensei onde coloquei a minha, numa caixinha feita por mim, no fundo do armário. Não adiantou escondê-la, outra aliança apareceu para me dizer que eu ESTAVA noiva. E agora não estou mais.

Enquanto eu estava meio desnorteada, ouvi alguém chamar: “Anne!”. A dona da aliança virou o rosto. Era o que me faltava, a noiva em questão é quase minha xará. Anne, quase Anna.

Na saída da academia, o noivo dela a esperava. Vi os dois se beijando e pela primeira vez eu soube, realmente, o que significa inveja branca. Quero que a Anne seja feliz, pensei. Mas eu também queria ser.

Voltei para casa sozinha, a pé, pensando se será sempre assim: um voltar sempre sozinha para casa. E ainda comecei a chorar no caminho, de tanta saudade do Otto. Acho que vou pesquisar alguma receita muito difícil, assim eu passo horas na cozinha e termino a noite sem pensar em nada. Nem nele.

Explore posts in the same categories: Limão

Comment: