A concha
Desde criança, eu sempre fui uma conchinha. Quando tinha um problema ficava lá, quietinha, até achar a solução ou esperar passar. Isso não é lá muito bom, uma hora a conchinha não agüenta e… pou! Explode.
O Otto implica com a minha terapia há um bom tempo. Diz que é bobagem, eu pago para uma desconhecida me ouvir? Por que não conversar com ele? Não, não é fácil. Abrir o meu coração para ele é abrir o que há de mais profundo em mim. É preciso confiança, uma boa dose de desprendimento e um tanto assim de segurança.
Eu confio nele, eu me sinto segura, sou desprendida, mas o que me impede? Por que não me abro?
Nós estamos juntos há um bocado de tempo e já espetamos o dedo nos espinhos várias e várias vezes. É fácil achar tudo lindo e encantador quando não sabem que atravessamos o Triângulo das Bermudas a nado e sem bote salva-vidas por perto.
Ele é um amor comigo, mas eu sempre acho que vai passar. Sempre parece que estamos chegando no Triângulo novamente, sem salva-vidas, e ele me deixará lá boiando sozinha. Não será assim, mas tenho muito medo. Para quem já quase se afogou várias vezes, poça d’água em dia de chuva é maremoto num oceano.
Para abrir a concha, terá de ser com amor e delicadeza. Além de paciência. Depois de tudo, sei o quanto eu preciso deste cuidado.